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Assimilação Natural - o Construtivismo Comunicativo no Ensino de Línguas

Stephen Krashen

As duas hipóteses mais importantes da teoria de Krashen, e sua interrelação

A hipótese acquisition-learning e a hipótese monitor representam a essência da teoria de Krashen.

De acordo com sua teoria, acquisition é responsável pelo entendimento e pela capacidade de comunicação criativa: habilidades desenvolvidas subconscientemente. Isto ocorre através da familiarização com a característica fonética da língua, sua estruturação de frases, seu vocabulário, tudo decorrente de situações reais, bem como pela descoberta e assimilação de diferenças culturais e pela aceitação e adaptação à nova cultura.

Learning depende de esforço intelectual e procura produzir conhecimento consciente a respeito da estrutura da língua e de suas irregularidades, e preconiza a memorização de vocabulário fora de situações reais. Este conhecimento atua na função de monitoramento da fala. Entretanto, o efeito deste monitoramento sobre a performance da pessoa, depende muito do perfil psicológico de cada um.

Veja aqui mais sobre os conceitos de acquisition e learning.

A hipótese monitor explica a relação entre acquisition e learning ao definir a influência deste último sobre o primeiro. Os esforços espontâneos e criativos de comunicação, decorrentes de nossa capacidade natural de assimilar línguas quando em contato com elas, são policiados e disciplinados pelo conhecimento consciente das regras gramaticais da língua e de suas exceções.

Os efeitos deste monitoramento sobre pessoas com diferentes características de personalidade serão vários. Pessoas que tendem à introversão, à falta de autoconfiança, ou ao perfeccionismo, pouco se beneficiarão de um conhecimento da estrutura da língua e de suas irregularidades. Pelo contrário, no caso de línguas com alto grau de irregularidade (como o inglês), poderão desenvolver um bloqueio que compromete a espontaneidade devido à consciência da alta probabilidade de cometerem erros.

Pessoas que tendem à extroversão, a falar muito, de forma espontânea e impensada, também pouco se beneficiarão de learning, uma vez que a função de monitoramento é quase inoperante, está submetida a uma personalidade intempestiva que se manifesta sem maior cautela. Os únicos que se beneficiam de learning, são as pessoas mais normais e equilibradas, que sabem aplicar a função de monitoramento de forma moderada. Mesmo assim, numa situação real de comunicação, o monitoramento só funcionará se ocorrerem 3 condições simultaneamente:

O construtivismo no ensino de línguas

A teoria de Krashen fornece substrato ao Natural Approach e ao Communicative Approach, versões norte-americana e britânica, respectivamente, do construtivismo no ensino de línguas.

O construtivismo preconiza o desenvolvimento de habilidades e conhecimento como resultado de ação, de interação do ser inteligente com seu ambiente. Portanto, o ambiente é fator determinante. No caso de línguas estrangeiras, o ambiente apropriado é aquele que oferece convívio multicultural.

Ambientes multiculturais de convívio: Ambiente de convívio multiculural ou bicultural é aquele composto de pessoas de diferentes nacionalidades e culturas, que proporciona o desenvolvimento do conhecimento necessário e das habilidades básicas necessárias para que todos possam se comunicar em qualquer situação e nele se sintam à vontade. Quanto maior o grau de afinidade entre seus integrantes, mais completa será a assimilação.

O papel da gramática segundo Krashen

De acordo com Krashen, o estudo formal da estrutura de uma língua pode vir a oferecer certos benefícios, fazendo com que escolas secundárias bem como cursos de nível universitário (letras e lingüística) tenham interesse em incluir o estudo da gramática em seus programas de línguas estrangeiras. Deve ficar claro, entretanto, que a formulação de regras e o estudo das irregularidades e das complexidades da língua, não constituem-se em ensino e aprendizado que produzam proficiência comunicativa, mas apenas "apreciação" da língua, ou, simplesmente, lingüística.

A única situação na qual o ensino da gramática pode resultar em assimilação e desenvolvimento da proficiência, ocorre se duas condições forem atendidas:

Normalmente, quando isso ocorre, ambos, professor e alunos, acreditam que o estudo formal da gramática é essencial para a assimilação e o desenvolvimento da proficiência. Além disso, o professor é hábil o suficiente para apresentar suas explicações unicamente na língua estrangeira, de maneira que os alunos entendam. Na verdade, o que ocorre é que a linguagem usada pelo professor se configura em perfeito comprehensible input e, com a natural participação dos alunos devido ao seu interesse, acaba criando-se na sala de aula um ambiente adequado para que que language acquisition ocorra. Em paralelo a isso, o affective filter é baixo, uma vez que a atenção dos alunos se concentra no assunto em si, naquilo a respeito de que se fala, e não na forma da linguagem usada.

Essa questão é muito sutil e curiosa. Na verdade, professores e alunos podem estar iludindo-se a si próprios. Ambos acreditam ser o conhecimento metalinguístico adquirido através do estudo da gramática responsável pelo desenvolvimento da proficiência do aluno, quando na realidade o desenvolvimento vem do exercício comunicativo e não do conteúdo da mensagem. Qualquer tema que venha a despertar o interesse do aluno e cativá-lo, que seja apresentado dentro de seu nível de competência, produzirá o mesmo resultado. E se além do interesse intelectual, houver envolvimento no plano psicológico e afetivo, o resultado será surpreendente.

Bibliografia